Confusão na Apex revela amadorismo e despreparo do novo governo

Alex Carreiro foi demitido menos de uma semana após sua nomeação na Apex, agência do governo federal responsável pela promoção de exportações. A indicação de seu nome foi meramente política, já que Carreiro não possuía a qualificação que o cargo exige, e isso causou constrangimento entre diplomatas. Sua nomeação partiu diretamente do presidente Jair Bolsonaro, que ficou sabendo da demissão pelo Twitter

 
 A carreira de Carreiro na Apex não durou uma semana A carreira de Carreiro na Apex não durou uma semana
Para tentar resolver um terremoto provocado na Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Atração de Investimentos (Apex-Brasil), o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, anunciou na quarta-feira (9) a saída do presidente da Apex, Alexsandro (Alex) Carreiro, apenas uma semana depois de sua nomeação. Araújo também anunciou que o embaixador Mário Vilalva será o novo presidente da Agência. 

"O sr. Alex Carreiro pediu-me o encerramento de suas funções como presidente da Apex. Agradeço sua importante contribuição na transição e no início do governo. Levei ao presidente Bolsonaro o nome do embaixador Mário Vilalva, com ampla experiência em promoção de exportações, para presidente da Apex", escreveu Araújo em sua conta no Twitter.

Carreiro soube da demissão por terceiros, após Araújo já ter postado a informação no Twitter. Mas ele continua dando expediente na Apex e diz que só deixará o cargo depois de ser exonerado oficialmente pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, que foi quem o indicou para o cargo.

Em conversas com amigos, Carreiro disse que Bolsonaro não foi avisado previamente da decisão do ministro de demiti-lo. Ele garante que se encontrará com o presidente ainda nesta quinta-feira, 10 de janeiro, para conversar sobre a decisão de Araújo.

O imbróglio é revelador do grau de amadorismo e despreparo do novo governo.

Desqualificado para o cargo

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro prometeu que faria escolha de cargos no seu governo seguindo apenas "critérios técnicos". Não parece ter sido esta a motivação da escolha de Carreiro para o comando da Apex.

A própria nomeação já foi envolta em confusão. Um tuíte do chanceler Ernesto Araújo (que depois foi apagado) questionava a indicação política do novo presidente da agência de exportações e colocava em dúvida sua qualificação.

Sem qualquer experiência em comércio exterior e promoção comercial, e sem ter ocupado qualquer cargo relevante na administração federal, - e, segundo comentários internos, sem saber falar bem inglês - Carreiro, que foi assessor do PSL no Congresso, chegou ao cargo por indicação de Bolsonaro e por sua amizade com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos filhos do presidente.

A falta de qualificação não parece ter sido a única motivação para a demissão de Carreiro. Segundo o jornal Correio Braziliense, uma briga com uma das diretoras da Agência, Letícia Catelani, foi o pivô de seu afastamento do comando do órgão. 

Letícia, dizem parlamentares do PSL, tem temperamento explosivo e só chegou à Apex por ser amiga do filho do presidente Jair Bolsonaro.

Demissões sem fundamento

Em seu primeiro dia no cargo, uma das medidas iniciais de Carreiro foi a demissão de 17 servidores, alguns com mais de 10 anos de casa, contaram à "Reuters" fontes que acompanharam de perto a crise na Apex. Carreiro ainda havia prometido para a próxima semana a demissão de mais 19 pessoas, o que levaria a mais de 10% do efetivo da agência.

A alegação, disse uma das fontes, era a "despetização" da agência. No entanto, apenas uma das pessoas demitidas até agora teria relação com o PT - era irmão de um ex-assessor da ex-presidente Dilma Rousseff.

"Foi um massacre, nunca vi coisa assim. Era um desmonte completo", disse uma das fontes.

A desestruturação da agência e as reclamações contra Carreiro - não apenas por parte de servidores, mas também de empresários e diplomatas - teriam chegado aos gabinetes do Palácio do Planalto e levaram à revisão da indicação do presidente da Apex, na primeira demissão de um nomeado pelo governo Bolsonaro.

Dona de um orçamento independente de R$ 650 milhões oriundo do Sistema S, a Apex tem a função de organizar missões e feiras no exterior para promoção dos produtos brasileiros. A agência é tradicionalmente ligada ao Itamaraty.

Na reestruturação promovida pelo atual governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou levar a agência para sua alçada, mas perdeu a disputa. A Apex se manteve no Itamaraty, com o apoio dos filhos do presidente Bolsonaro.

O blog do jornal Correio Braziliense informa que "no governo, o clima é de tensão, pois o que deveria ser uma simples exoneração de uma nomeado pode se tornar uma crise. A pergunta que todos se fazem é: o que ocorrerá com Ernesto Araújo se Bolsonaro decidir manter Alex Carreiro na Apex?"

Fontes: Terra, Correio Braziliense e Agência Brasil
 

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