Resultado do PIB indica mais desigualdade e violência

O resultado do PIB brasileiro no terceiro trimestre de 2019 apresentado pelo IBGE reforça as preocupações a respeito das consequências do caminho a que a economia brasileira está submetida desde o governo Temer.

Diogo Santos

 
 
Em primeiro lugar não há nada de animador em um crescimento de 0,6% em um país com mais de 12 milhões de desempregados e outros 27 milhões de subempregados. Mas isso poderia ser uma boa notícia se efetivamente estivéssemos diante da indicação de uma retomada consistente do crescimento, o que definitivamente não é o caso.

A agropecuária (1,3%) e a indústria extrativa (12%) foram os setores que mais cresceram. Acontece que o crescimento desses setores, além de não estar relacionado com melhoras internas ao país, possui um baixo efeito sobre o conjunto da economia, por dois motivos: demandam pouco dos demais setores para sua própria produção, ou seja, não puxam consigo o crescimento da produção dos demais setores; e empregam pouca força de trabalho.

A evidência mais clara, porém, de que não estamos diante de uma recuperação sustentada é o resultado da Indústria de transformação (queda de 1%). A importância desse setor não é fetiche industrialista da esquerda como tagarelam os liberais vira-latas. É teórica e empiricamente comprovada que é a Indústria de transformação é o setor mais interligado ao conjunto da economia, sendo, assim, capaz de puxar o crescimento.

Isso ocorre, ente outras coisas, porque a indústria de transformação é grande demandante, não só da própria Indústria como também de serviços. Aliás, os setores de serviços mais avançados, isto é, com maior conteúdo tecnológico e melhores remunerações, são aqueles prioritariamente contratados pelas empresas industriais, como por exemplo os serviços de tecnologia da informação e comunicação, de engenharia, criação de softwares, montagem e reparação de máquinas, entre outros.

Ainda sobre os serviços deve-se registar que o setor que mais cresceu no trimestre foi o de atividades financeiras e seguros (1,2) e o que mais caiu foi administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social (-0,6%). São números que falam por si a respeito de quem está ganhando e quem está perdendo com a política econômica desse governo.

Menos razoável ainda é a comemoração do crescimento do consumo como se estivesse sinalizando uma mudança de trajetória da economia. O consumo da classe trabalhadora depende naturalmente da renda que recebem com a venda da sua força de trabalho. Mas, como mostra o IBGE, o mercado de trabalho quase não apresentou melhora nesse trimestre.

Houve manutenção da quantidade de trabalhadores desempregados (12,4 milhões) e pequena queda na subutilização da força de trabalho (0,8%) totalizando ainda 27,1 milhões de pessoas. Além disso, o número de trabalhadores por conta própria cresceu 3,9% em relação ao terceiro trimestre de 2018 .

Portanto, a parcela do aumento do consumo decorrente da ampliação de 1,8% da renda conjunta dos trabalhadores advém principalmente do trabalho daqueles que, em grande maioria sem opção, se lançam no trabalho informal, sem proteção social, sem direitos, com rendimento baixo e incerto, chamados insolentemente de empreendedores pelo vocabulário ideológico da burguesia.

Outra parcela do aumento do consumo advém da liberação conjuntural do saque do FGTS. Essa medida, apesar de equivocada por retirar recursos do fundo de financiamento imobiliário, mostra um fato que o governo de liberais fundamentalistas resiste em admitir: a saída da crise está na geração de demanda. A liberação do FGTS somente foi realizada porque o governo viu-se pressionado a tomar alguma medida para evitar que o PIB retrocedesse em 2019 ou ficasse muito próximo de zero. Essa pressão pôde ser percebida pelas manifestações na imprensa de empresários e economistas do mercado.

A utilização dos recursos do FGTS permite também às famílias realizarem o abatimento de dívidas antigas e, portanto, abre espaço para a contratação de novas dívidas, como o pagamento de prestações de bens de consumo duráveis. Contudo, os níveis de endividamento das famílias voltaram a subir em 2019. A proporção das dívidas em relação à renda acumulada em 12 meses era de 41,9% em maio de 2018 e subiu para 44,04% em maio desse ano. Além disso, 64,1% das famílias se declararam endividadas em julho desse ano contra 59,6% em julho de 2018 . Portanto, é provável que o efeito do FGTS na decisão das famílias de contraírem novas dívidas e assim manter o crescimento do consumo será temporário, pois estarão concentradas em pagar as dívidas existentes.

Outro setor que apresentou crescimento foi a Construção civil (1,3%). Primeiramente, deve-se salientar que esse setor estava no fundo do poço. Foram praticamente cinco anos de queda. Logo, esse crescimento parte de uma base de comparação muito baixa. Além disso, esse crescimento resulta também da liberação conjuntural do FGTS e está fortemente concentrado em São Paulo. Por fim, a construção de prédios residenciais e comerciais continua estagnada, o que demonstra a fragilidade desse crescimento.

É, portanto, um suspiro e não de uma retomada. Ademais, as características desse suspiro indicam que estamos no caminho de um país mais dependente da exportação de bens primários, com mais desigualdades do mercado de trabalho em termos de proteção e remuneração dos trabalhadores e tecnologicamente mais defasados.

Mantido esse rumo, o desemprego se manterá elevado por um longo período, aprofundando a pobreza e piorando as condições de vida do povo. O outro lado dessa moeda, é o crescimento do autoritarismo. Liberalismo nunca teve que ver com liberdade. Muito menos nos países periféricos. A escalada de violência das forças policiais – que possui uma função repressiva e outra ideológica - e a tentativa de destruição do Estado Democrático de Direito são, desse modo, elementos necessários à tentativa de construção de uma sociedade ultraliberal no Brasil, ou, chamando pelo nome correto, de uma neocolônia brutalmente desigual e violenta.

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Diogo Santos é mestre e doutorando em Economia pela UFMG. Foi chefe de gabinete da Secretaria de Desenvolvimento Integrado do governo de Minas Gerais. É membro da Fundação Maurício Grabois (MG) e da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia.

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1 - PIB sobe 0,6% no terceiro trimestre puxado por serviços e indústria. Agência de Notícias do IBGE. 03 dez. 2019. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/26172-pib-sobe-0-6-no-terceiro-trimestre-puxado-por-servicos-e-industria
2 - Desemprego fica em 11,6% e subutilização tem queda no tri encerrado em outubro. Agência de Notícias do IBGE. 29 nov. 2019. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/26122-desemprego-fica-em-11-6-e-subutilizacao-tem-queda-no-tri-encerrado-em-outubro
3 - Endividamento das famílias é o maior em 3 anos. Valor Econômico. 05 ago. 2019. Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2019/08/05/endividamento-das-familias-e-o-maior-em-3-anos.ghtml
 
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